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24 julho, 2015

Um Tweet, um fato, a mídia e um aprendizado.

Foto: Reprodução
Pelo título pode até parecer que vamos falar de um assunto leve, mas não. Hoje é sobre algo que já não deveria existir mais. Hoje o assunto é de se pensar, de ver o mundo que nos cerca e que tipo de informação nós absorvemos. Hoje vamos falar sobre a mídia e o racismo.
Nos últimos dias, duas divas do pop americano trocaram tweets que alguns interpretaram de uma forma e outros de outra, o que é completamente normal já que cada um de nós entende os fatos de um jeito diferente. 
Nicki Minaj, rapper americana, usou a sua conta no Twitter para criticar a indústria da música, falando sobre como infelizmente ainda existe racismo na nossa sociedade e como isso é visto como algo normal. O comentário seria sobre o fato de "Anaconda", hit da cantora, não ter sido tratado da mesma forma como muitas outras músicas de cantoras brancas que falam e mostram sobre as mesmas coisas são tratadas. Críticas muito prudentes sobre ter sido indicada em poucas categorias no VMA deste ano fazendo basicamente a mesma coisa que Miley Cyrus fez no clipe de Wrecking Ball - e que recebeu muitas indicações e prêmios.
Nicki deu um show e não é preciso muita explicação sobre isso. Segue os tweets dela:

"Se eu fosse um ‘tipo’ diferente de artista Anaconda teria sido indicado a melhor coreografia e vídeo do ano"
"Quando ‘outras’ garotas lançam vídeos que quebram recordes e impactam a cultura elas ganham essa indicação"

"Se seu vídeo celebra mulheres com corpos magros, você é indicada a vídeo do ano"
Até aí tudo certo. Ela foi incrível com os pontos que levantou, pontos esses que são importantes e pouco discutidos abertamente, a representatividade do negro na música e a desvalorização disso. Porém aconteceu o inesperado: Taylor Swift, autora de Shake it Off, vestiu a carapuça das indiretas e respondeu Nicki: 

"Nicki, eu não fiz nada além de te amar e te apoiar. Não é do seu feitio colocar mulheres umas contra as outras. Talvez um dos homens tenha pego o seu lugar"
Talvez como crítica, talvez apenas achando que o mundo gira ao redor de seu lindo umbiguinho, Swift falou o desnecessário que rendeu a divisão de águas no mundo pop e uma boa fofoca pra nossa tão gloriosa mídia sobre o que a rapper recém tinha criticado. A desculpa de Taylor? Algum dos outros indicados (Ed Sheeran, Kendrick Lamar ou Bruno Mars) tenham ficado com a indicação no lugar de Minaj.
O fato de Taylor ter se metido no que não era chamada e ter apresentado tal atitude pode nos ensinar algumas coisas, sendo uma, e a mais importante, de que é justamente isso que acontece ao nosso redor e não percebemos. O negro é desvalorizado em muitas situações, o preconceito por cor é tratado como tabu e vitimismo, mas é tão vivo quanto nós nessa sociedade. É algo que pessoas brancas precisam aprender, é necessário que essas pessoas que não sofrem preconceito por questões raciais entendam o quanto é importante a valorização e empoderamento de negros. Negros e negras não se encaixam no padrão imposto pela mídia. Negros e negras não tem a mesma facilidade que brancos.
Outro ponto que é bom destacar nesse tweet é a tão polêmica sororidade. Mas o que é sororidade? A sororidade é o pacto entre as mulheres que são reconhecidas irmãs, sendo uma dimensão ética, política e prática do feminismo contemporâneo, como diria nosso amigo Wikipédia. Eu, particularmente, acho  a sororidade uma das coisas mais importantes do feminismo, que as mulheres parem e percebam que esse ódio que nos incentivam a ter entre nós mesmas não nos ajuda em nada. O que há de errado com a sororidade aqui? É justo o que eu disse antes. É questão de empoderamento. Temos que ser mais unidas SIM, mas mulheres brancas tem que saber dar espaço pra mulheres negras. Taylor em três frases nos deu um ótimo exemplo do que é o feminismo branco, do que é negar toda uma história e tratar apenas como uma casual injustiça contra ela. E apenas ela.
Mas o que a mídia caracterizou como "briga" (o que eu vejo apenas como uma conversa, um debate, ou, no máximo, um desentendimento entre duas pessoas) não terminou por aí. Minaj e Swift trocaram mais alguns tweets que, depois, repercutiriam muito mais do que realmente foram nos sites de fofoca. 

"Que? Você não deve estar lendo meus tweets, não falei nada sobre você. Eu te amo tanto quanto você me ama. Mas você deveria falar sobre isso, @taylorswift13".

"Se eu ganhar, suba no palco comigo!! Você está convidada a qualquer palco que eu esteja".

Depois do tweet que pode soar como arrependimento ou como sarcasmo, Nicki deu alguns retweets em fãs que a seguem e estavam falando sobre o assunto, tais como:

"Taylor, pare de usar ‘apoie todas as mulheres’ como uma desculpa para não ser crítica à mídia racista que beneficia e vangloria você"
"Não é uma questão de diminuir os outros artistas, é só que Nicki está sendo esnobada por fazer exatamente a mesma coisa que os fazem ganhar prêmios"

Muitos dos seguidores de Nicki Minaj elogiaram a sua posição, dizendo entre tantas coisas o como ela era forte e corajosa. E logo veio outro tweet e mais um tiro no cara da nossa mídia opressora:

“Eu não sou sempre confiante. Só cansada. Mulheres negras influenciam tanto a cultura pop mas raramente são premiadas por isso”

E ela não parou por aí! Na mesma hora em que a "confusão" acontecia e muitos sites já publicavam notícias sobre a Terceira Guerra Mundial do pop, ela deu mais RT's e mais críticas.

Acima: "Nada do que eu disse tinha a ver com Taylor. Então, o que é 'jabs'? Mídia branca e suas táticas. Tão triste. Isso é o que eles querem."
Abaixo: "Ryan postou uma manchete de Taylor dizendo que ela me ama e me apoia. Mas não eu dizendo o mesmo que ela. Ri Muito. Sua manchete diz que eu fiz um 'jab'?"


Mas não parou por aí! Taylor Swift tem uma rixa com a cantora Katy Perry, onde as duas vivem jogando indiretas uma pra outra. Basicamente essa rixa aconteceu porque Perry teria "roubado" dançarinos da tour de Swift ano retrasado. Taylor fez uma música denominada "Bad Blood" (que fala sobre o fim de uma amizade) e no clipe da música a autora se junta com outras amigas para derrotar a inimiga. Sabendo disso, ganhamos mais uma personagem nessa história que contribuiu com a indireta:
"Achando isso irônico de exibir o argumento de colocar uma mulher contra a outra enquanto que uma capitaliza imensuravelmente no derrubar de uma mulher ..."


Nicki respondeu mais este tweet desnecessário e intrometido com um emoji, fica a dúvida se concordando com Perry ou ironizando a situação.
Mais tarde, Taylor, via Twitter, pediu desculpas que foram aceitas pela pacienciosa Nicki Minaj.

"Eu pensei que estivesse sendo insultada. Eu entendi errado, e então respondi errado. Desculpa, Nicki."



Acima: "Isso significa tanto, Taylor. Obrigada."
Abaixo: "Eu sempre a amei. Todo mundo comete erros. Ela ganhou muito mais meu respeito. Vamos seguir em frente"



Hoje pela manhã, Nicki Minaj compareceu ao programa americano "Good Morning America" onde falou sobre o que aconteceu. "Primeiro de tudo, eu falei com Taylor Swift ontem pelo telefone. Ela foi muito fofa. Ela pediu desculpas. Ela disse 'Olha eu não tinha entendido o grande motivo do que você estava dizendo mas agora eu entendi'. Então está tudo bem entre a gente. Foi muito grande da parte dela vir e falar aquilo. Então, sim, nos falamos muito tempo. Nós estávamos nos divertindo pelo telefone. Acabou, pessoal." Perguntada pela apresentadora se haveria a possibilidade de uma colaboração com a loira, Minaj não titubeou! “Com certeza podemos trabalhar juntas, sabe por que? Porque é preciso ser uma grande pessoa para fazer o que a Taylor fez. Todo mundo fala às vezes sem pensar, eu mesma já fiz isso. Às vezes, fazemos as coisas e não pensamos na hora, não investigamos. Apenas falamos. Foi muito grande da parte dela falar abertamente“.





Ainda durante a entrevista, Nicki explicou mais um pouco sobre o porquê de ter reclamado da falta de indicações ao clipe de “Anaconda”. “Esse vídeo teve um enorme impacto cultural e, além disso, nós quebramos o recorde Vevo. Acho que se fosse de uma das garotas do pop, teria conseguido muitas nomeações.” A rapper também comentou sua crítica de que apenas clipes com garotas magras recebem várias indicações. “Não podemos ter apenas um tipo de corpo glorificado pela mídia porque isso só faz as meninas ainda mais inseguras do que já somos.”




Sendo este o fim da guerra, vamos discutir algumas coisas desta segunda parte da "briga" e ver o que aprendemos hoje. 






> Sororidade. 


Como eu já havia comentado, sororidade é uma coisa polêmica. Quando Katy Perry insinua que Taylor está sendo hipócrita, ela está olhando com os mesmos óculos o conceito de sororidade que Swift usou como argumento e que o Wikipédia nos definiu. E está certíssima! Porém são coisas que nos fazem refletir sobre a índole das pessoas. A sororidade é importante, mas não significa que todos nós devemos nos amar infinitamente, mas que devemos nos respeitar, sem julgamentos. É válido pensar que as pessoas podem ser boas ou más, nem sempre vamos gostar tanto de todas as pessoas que conhecemos. 




Eu não vejo sororidade como muitas mulheres se amando e sendo melhores amigas, mas sim como todas se respeitando independente da sua diferença. É um laço mais forte, algo que incentiva que pare já com esse ódio e brigas entre mulheres como vemos em muitas ocasiões como esta. Mesmo assim, Taylor não deixou de agir de forma hipócrita.






> Problematizar é importante. 


Eu vi essa dita "briga" como muitas das conversas que eu mesma já tive onde fui problematizada, onde me disseram que eu estava pensando da forma errada. Swift pensou da forma errada o que Nicki problematizou com muita razão. Sendo assim, talvez (e eu espero que tenha acontecido de verdade) Taylor tenha pensado melhor na situação e visto que realmente pela cor de pele ela tem facilidades e regalias. Problematizar é deixar que as pessoas mostrem os erros que você está cometendo e, assim, admitir e aprender com eles, começar a repensar o que acontece na sua volta e mudar algumas atitudes.






> Representatividade. Já bati nessa tecla, mas vamos pensar novamente. Como são os protagonistas da maioria dos filmes e novelas? Eminem e Iggy Azalea fazem o mesmo que muitos negros fizeram por anos, mas porque eles receberam tantos holofotes logo no início da carreira? Representatividade é importante por isso. Todos nós temos que aprender a respeitar , valorizar e dar importância pra uma minoria.





Conversei com algumas negras sobre o assunto, uma delas foi Laryssa Salenave (19), estudante de jornalismo. Quando perguntei sobre o espaço da negra hoje em dia ela disse "Os negros ainda não conquistaram seu espaço hoje em dia. Ainda existe preconceito. Ainda tem muito pra se conquistar. O preconceito ainda é muito grande, principalmente se tu é negra e mulher. Ainda existe uma diferença na hora de procurar emprego, na faculdade. Teoricamente, no que a sociedade apresenta, ainda falta muito par ser conquistado. Muitas vezes os direitos da gente não são valorizados, eu acho que muito do que a gente conquistou hoje em dia não é respeitado". "A história que nos cerca é racista", complementa. 




Marcella Gonçalves (19), que cursa Engenharia de Alimentos na UFRGS, quando questionei sobre a valorização do negro ela disse "É uma pergunta difícil de responder, porquê infelizmente o único ou o maior motivo seja o preconceito mesmo. O fato das pessoas acharem que um negro é inferior ou não vai conseguir fazer o mesmo trabalho com competência que uma pessoa da cor branca. Acho que é necessário igualdade, mesmo que isso seja sonhar demais, na hora de dar espaço pra um negro na mídia. Pelo simples fato de que ele é competente e apenas isso.". 


Quando falamos sobre o que aconteceu entre Nicki e Taylor, Marcella diz "Concordo plenamente com a Nicki. Existe aquela história de que a mídia segue padrões, e a Nicki foge de todos eles (graças a Deus e fico felicíssima com isso). Então é muito mais fácil pra mídia indicar alguém que esteja nos padrões, e quando digo padrões, quero dizer em pessoas brancas e magras. E acho que muitas outras artistas negras deveriam se impor igual a Nicki Minaj fez e buscar o seu lugar na mídia (ou em qualquer lugar) e não admitir que esse padrão, que na maioria das vezes exclui negros para agradar o público, continue. Achei muito válido o pedido de desculpas da Taylor pelo simples fato de que ela não havia entendido o que a Nicki queria dizer e o que ela queria criticar. Mas não sei se ela concorda com o que a Nicki disse, por que, querendo ou não, a Taylor segue os padrões da mídia e talvez, infelizmente, ela não saiba o que é ser excluída da mídia por causa da cor ou pelo físico. Ainda bem que elas conversaram e espero que a Nicki tenha mostrado as ideias dela pra Taylor que estão completamente certas."






> A mídia transforma os fatos da forma que lhe cabe.


É só abrir os olhos e ver de fora o que aconteceu: a mídia transformou algo importantíssimo em apenas uma briga de divas pop. O que realmente deveria ter sido notado, a crítica ao racismo no mundo da música, foi deixado de lado pra ver ferver a discussão entre os fãs de ambas as cantoras. Tudo por dinheiro, por visualização, por ibope. As revistas, os sites e os jornais se beneficiam disso de muitas formas, mas o que deveria ter sido colocado em pauta é como o mundo é realmente, o que está por trás de uma resposta desnecessária. A mídia só tratou como notícia relevante depois que uma mulher branca se envolveu e agiu na defensiva. As manchetes gritavam o nome de Taylor Swift como vítima e ainda incentivaram o esteriótipo de "negra barraqueira" apenas porque Nicki Minaj respondeu de forma coerente. Não foi bem assim e não é apenas isso. Existe sempre uma questão maior.





"Taylor Swift chama Nicki Minaj após seu discurso retórico no Twitter sobre MTV Video Music Awards e a nomeação  de 'Anaconda'"




Vale lembrar que este é apenas o meu texto, é apenas a minha opinião sobre uma confusão que foi criada. Vale lembrar também que isso é apenas uma tentativa de explicar como as coisas realmente funcionaram e o que a mídia pintou. Vale lembrar que Nicki Minaj tem todo o direito do mundo de dizer o que disse. 


Vale lembrar que ainda existe racismo e que estamos aqui lutando contra. 


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