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10 junho, 2015

Mary Mezzari: O Limite é a Verdade

Mary Beatriz Silva Mezzari. Esse é o nome completo de uma das mais conhecidas radialistas da capital gaúcha que, com seu jeito irreverente e sincero, vive seu sonho de infância sendo comunicadora. A entrevista aconteceu num café no bairro Bom Fim, onde, à meia-luz, os sofás e poltronas combinavam harmoniosamente com com os quadros vintages das paredes e a musica que tocava, dando a impressão de que fomos teletransportados para um pub inglês.
Logo que Mary Mezzari chega e eu a cumprimento com um "Tudo bom? Como a senhora está?" ela já demonstra toda sua atitude rindo e soltando a frase "Não me chama de senhora! Me chama de Mary, de tu, mas não de senhora!". Nos sentamos, ela pede um café pingado e então começamos a entrevista.

Juliana Coin: Vamos começar falando sobre o teu lado profissional, a tua carreira,  como ela começou?
Mary Mezzari: Ela começou assim ó: eu fui uma criança precoce. Eu decidi que eu ia ser dessa área da comunicação bem cedo, oito ou nove anos eu já tava na minha cabeça o que eu queria ser, ai eu me direcionei pra isso. Eu sou do tempo do clássico, antes da faculdade tinha o clássico e cientifico, e eu já fui pro clássico. Já me encaminhei pra área das humanas e eu comecei já tava na faculdade, comecei trabalhando em jornalismo gráfico como estagiária-faz-tudo no jornal da semana, que era um jornal semanal de um grupo de Novo Hamburgo. Foi aí que eu comecei.

JC: O ensino clássico e científico era dos vestibulares da UFRGS antes, onde tu cursou jornalismo, né?
MM: Exatamente. Cursei na UFRGS, na Fabico.

JC: O que te levou a querer jornalismo? Tu foi uma criança precoce, mas o que te fez querer isso?
MM: A minha família gostava muito de ouvir rádio e ver jornal,  então eu sempre tive o costume de ficar ouvindo o rádio ligado, eu aprendi a ler no Correio Do Povo assim, juntando letra com letra, botava o Correio Do Povo no chão e deitava encima dele, e eu aprendi a ler ali, né. Quer dizer, exercitei o aprendizado ali. E depois eu tinha algumas pessoas que eu admirava no rádio, como o caso na Guaíba que era a rádio que era top na época, eu gostava muito do estilo de jornalismo que eles faziam. Na época também tinha uma jornalista italiana, Oriana Fallaci, que ela entrevistava os grandes homens da época e eu tinha muita vontade de ser como ela e eu me inspirei por isso, por gostar de rádio, de jornal.

JC: Então tu sempre pensou no rádio, desde a infância?
MM: É, é.

JC: Qual a parte boa de trabalhar no rádio?
MM: A parte boa é tu poder te soltar, tu não depender da tua aparência, de como tu tá vestida, da tua cara. É tu poder exercer o teu trabalho quase que no anonimato assim, né. Tu não é vista como uma pessoa que trabalha em televisão, por exemplo. Essa é a parte boa, de se esconder e de brincar com a imaginação das pessoas. E o legal do rádio assim é também a velocidade. Hoje a internet chega até a bater o rádio em alguns momentos, mas o rádio ainda é a mais acessível das mídias que tu pode assim... Falar imediatamente um fato acontecido. Sei lá! Caiu um avião ali na redenção, eu pego um celular, ligo pra minha rádio e pum! Caiu um avião na redenção. Foi dada a notícia. O da internet o cara ainda tem que acionar o computador dele. É a velocidade.

JC: E qual a parte ruim?
MM: O que que é ruim no rádio? Olha, eu acho que nada! Nada! Não vejo nada de ruim em princípio (risos) .

JC: É uma paixão tão forte...
MM: É tão forte que eu não vejo nada de ruim. Nada, sinceramente.

JC: E outra do rádio, tu também tem uma certa privacidade...
MM: Exatamente, mas quem tem ouvido bom reconhece a voz.

JC: Já te reconheceram pela voz?
MM: Já! Se eu pedir, se eu chamar um garçom ou chegar num banco, "ah! eu te conheço!". Mas tem que ter ouvido bom.

JC: Quais rádios tu já trabalhou?
MM: Eu trabalhei na rádio Ipanema, como locutora. Tá! Na rádio Ipanema, na Itapema e na FM Cultura. Como jornalista só de texto, nessas três mais a Gaúcha, a Guaíba e na Difusora também. A Difusora não existe mais, é a Band hoje.

JC: Bom, tu trabalhou na Ipanema e tu saiu de lá né?
MM: Sim, faz um tempinho que eu saí de lá já, faz uns quatro anos.

JC: Porque saiu?
MM: Ah, pergunta pros diretores! (ela ri) A Ipanema, que é da rede Bandeirantes, vinha sofrendo pressões desde o começo, pressões pela audiência, aquelas coisas né, porque uma rádio, uma rádio comercial, precisa ganhar dinheiro e tudo aquilo. Aí houve um pedido da direção de São Paulo que fosse demitido uma das pessoas que tivessem um salário bom e aí o diretor foi obrigado a quase tirar no palitinho, assim, quem seria e caiu eu, depois veio... Depois de mim o Cláudio Cunha, que também foi demitido, antes de mim a Katia Suman...

JC: Ah  ela foi antes de ti?
MM: Sim, ela foi antes de mim. Eu ainda sobrevivi lá na rádio da geração Katia.  E é, foi isso. Foi a questão alegada, foi contenção de despesas.

J: E tu viu que agora a Ipanema acabou né?
M: Infelizmente. Eu ouvi a última transmissão, fiquei ouvindo até a meia noite , chorei (ela dá um riso entristecido). Eu não fazia mais parte da coisa, mas como eu ajudei a construir e fiquei tanto tempo lá, né, foi triste ouvir o final. Eu entendo as razões corporativas da bandeirantes, mas eu acho que poderia ter outro jeito, outra solução e não o fim da rádio Ipanema. Foi chorado, né? Eu acho que a Bandeirantes em São Paulo nunca entendeu exatamente o que era a rádio Ipanema, a diferenciação que ela tinha, a relação que ela tinha com a cidade, a relação que a Ipanema tinha com os moradores de Porto alegre e no interior, onde pegava.

JC: Sim, até porque é, ou era no caso, uma das principais rádios de Porto Alegre que tinha uma legião de fãs...
MM: Sim! Tinha seguidores, exércitos!

JC: Tem pessoas que tem tatuado o simbolo da Ipanema!
MM: Isso mesmo! (conta empolgada) Tem gente que tá viúva! Agora mesmo eu li no facebook "Ah Mary todos os dias eu ligo o rádio pra procurar a Ipanema e não tem mais". Eu acho que a rádio Bandeirantes errou, poderia manter a rádio de outro jeito .

JC: E isso talvez seja uma grande perda pra eles né? Até porque é uma questão de história, quase uma família.
MM: Foi, foi. O público, não sei se eles retomam. Vai ser bem difícil, a relação era quase de família

JC: Bom, tu trabalhou  bastante com rádio e trabalhou bastante com música, qual a diferença de trabalhar com música e com o jornal escrito, impresso, direto? 
MM: Ah, jornal é aquela dureza né, é mais duro (ela posiciona as mãos como se segurasse uma caixa enfrente ao corpo), e com o auxilio da música tudo fica mais fácil né, tu pode ilustrar algo com a música, falhou alguma coisa aqui na tua programação, tu larga uma música. A diferença é de linguagem né... A música fala de um jeito e o texto fala de outro jeito.

JC: E já que falamos em música, qual tua música, tua banda favorita, qual teu estilo?
MM: Rolling Stones. Desde que eu conheci o Rolling Stones eu comecei a ouvir nunca mais parei de acompanhar. Eu gosto de rock n' roll, gosto muito de rock n' roll... Mas não sou  defensora da cruzada, ate gosto de samba, adoro um bom samba, gosto de música erudita, até de um certo funk  dependendo do funk eu gosto, não aquele funk proibidão do Rio, mas tem um tipo de funk que, aqui no Brasil tem isso que é bem interessante, né. O hip hop também...

JC:Tu acha que jornalismo deve ter um limite? Uma questão mais ética assim...
MM: Eu acho que os limites são as leis que tem, não sei se tem uma lei específica, mas que protegem as pessoas de alguma injúria, difamação. Acho que o limite é esse. O limite é a verdade, sem a verdade não existe jornalismo, aí é fofoca.

JC: Claro, aí é como aqueles tablóides americanos, por exemplo.
MM: É, aqui no Brasil tem também, tem tv que é assim...

JC: A Tititi é assim, né?
MM: A Tititi, Contigo, Minha Novela, todas .

JC: Agora quanto ao impresso, tu acha que, com o avanço das mídias, é possível que ele acabe?
MM: Acabar não, mas que ele vem diminuindo, vem. Aqui no Brail, o Jornal do Brasil, um jornal do Rio de Janeiro foi um dos maiores jornais dese país e ele só é virtual agora.

JC: Isso aconteceu com outros jornais aqui do rio grande do sul também...
MM: Tem outros, de cabeça eu não me lembro, e eu acho que é uma tendencia. Ele diminui mas acho que aquele artigo grandão, ninguém lê um artigo grandão na tela do computador, eu não tenho saco de ler,  dói o olho! Nem um livro na tela do computador, não! Acho que ele tende a diminuir com essas mídias, a internet a mil chegando no mundo inteiro mas eu nao gostaria que acabasse, eu acho que não acaba...

JC: Até porque tem uma magia...
MM: Tem a mágica de abrir o jornal, de dobrar, de pegar uma caneta e marcar, eu... Eu não queria que acabasse. Mas sabe-se lá como vai ser no futuro de repente não vai ter mais árvores pra fazer o material do jornal né, não sei (ela abre um sorriso e dá de ombros).

JC: Tu acha que tem algum tipo de "salvação", algo que resgate o público que o jornal impresso tinha antes?
MM: (Ela pensa um por um tempo) Olha, se for uma especialização... (continua pensativa)

JC: Porque, por exemplo, a Zero Hora agora cada vez mais parece com uma revista...
MM: Tá tornando-se cada vez mais revista, mas aí falta aquele artigo de fundo, aquele material mais profundo, mas aí vai pra revista também. Não sei, sinceramente não sei. Baixar o custo, tornar mais barato, distribuir como o Metro, que eles distribuem, não vendem. Talvez por aí. E ganhar na publicidade. Baixar o preço e ganhar na publicidade. Por aí.

JC: Bom, tu é uma pessoa que trabalhou com comunicação sempre, muita gente te conhece pela rádio Ipanema como a gente falou antes. Em algum momento tu já te sentiu como uma celebridade?
MM: (Ela ri) Eu já me senti sim. Em pouquíssimos momentos. Em shows, claro. Na beira do palco tem 5o mil pessoas e tu lá. É de se sentir o máximo né! Mas assim, eu não me coloco na posição de ser uma celebridade, não tenho nenhum cuidado, assim, com exposição. Mas é claro que tu tem uma certa... Que  tu levanta a cabeça no geral quando tu trabalha na mídia. É a questão do glamour da mídia, né... Que te torna.

JC: Falando em show, tu estava na Ipanema quando tinham aqueles shows no Anfiteatro  Pôr-Do-Sol, né?
MM: Sim! Sim! Maravilhosos shows!

JC: E não fazem mais agora, o último foi no Opinião, certo?
MM: Não mais né, agora a rádio acabou, não tem mais Ipanema. (Mary ri) E foi no Opinião, porque a Ipanema faz aniversário junto com o Opinião, elas são do mesmo ano, tem a mesma idade, acho que é por isso. Não sei se esse ano que passou, que é sempre por outubro, novembro, não tava mais sendo feita.

JC: É, eu vi boatos de que durante esses shows promovidos pela Ipanema, tinha muita violência acontecendo na platéia, e que ficava por responsabilidade da Ipanema, que era por isso que fizeram no Opinião...
MM: Sim, sim, mas o que fazer né? Melhor não fazer então, né. Foi questão de segurança eu acho. Por que tinha realmente... Aquele lugar ali é enorme e tem matos por perto, né, que dá pra se esconder e quem tá afim de fazer maldade faz na redenção ao meio dia, como aconteceu com a guria, um horror! Mas acho que a grande motivação foi o financeiro. Se tivesse grana pagava mais segurança, botava mais gente. Acho que foi o financeiro

JC: Até porque é a Bandeirantes né...
MM: É, caixa única (solta uma risada).

JC: Se tu pudesse e quisesse mudar alguma coisa na tua carreira, o que tu mudaria?
M: (Pensa por um certo tempo) Talvez dar mais força pro lado atriz. Eu fui atriz por um certo tempo, fiz uma peça de teatro

JC: Sério?!
MM: Sério! Uma peça inspirada em um livro do Bukowski dirigido pelo Humberto Vieira, tinha o Zé Adão Barbosa e fiz também uns curtas, umas coisas de televisão. Gostei do assunto, gostei de apresentar.  Devia ter investido mais na carreira de atriz.

JC: Trabalhou só essa vez como atriz?
MM: No teatro, sim. Cinema e TV mais algumas vezes.

JC: O que tu trabalhou na tv?
MM: Eu fiz algum daqueles curtas da Globo, que era um por dia, da RBS. Fiz o Pois é Vizinha e fiz também um outro curta da Maria Angela Abraão chamado Quadrilha (ela fala com entusiasmo) Que é inspirado naquele romance do Carlos Drummond de Andrade, fulano que amava fulano que amava fulano que... E eu era a Lili, que era a última da história.

JC: Agora vamos pra um lado mais pessoal, conta um pouco sobre a tua infância e adolescência, onde tu cresceu, coisas que tu lembra...
MM: Tá. A minha família morava em Petrópolis, na rua Itaqui, do lado de onde hoje funciona um bar, barba negra, barba azul, alguma barba dessas... E eu passei a minha infância entre Petrópolis e eu lembro que a gente foi morar lá na beira da praia e, ah! Eu lembro de uma infância de muita molecagem, brincadeira na rua, anoitecer e a gente tá na rua brincando coisas de brincar na rua, e eu lembro das histórias da revolução  que eu via passar os tanques que tinha, tem até hoje, o quartel, e eu lembro daquilo. Depois fui pra Teresópolis e estudei no Ginásio São Luiz e ai era o tempo das reuniões dançantes, da galerinha se encontrar sábado de tarde na garagem de alguém e tal e deixa eu ver… E nessa época eu conheci já Beatles, que até então eu conhecia o que meu pai e minha mãe ouviam, né, e ai eu conheci os beatles. Eu vou lembrar, até hoje a minha amiga Vera me pergunta, "Mary, tu já ouviu falar de uma banda chamada beatles?" eu falei "não" "Ah então vem cá que eu vou te mostrar" e ela tinha um compacto e daí o resto é história né. Dai em seguida a gente foi pra Teresópolis, de Teresópolis a gente voltou pra Petrópolis... (Mezzari fica pensativa) Não! Ali em Teresópolis foi a época dos Rolling Stones, os amigos da esquina maldita, aqui ali no Bom Fim, o Alaska e Cia, uma coisa assim, as idas pra Santa Catarina, aquelas coisas que a gauchada descobriu o sul de Santa Catarina , eu lembro de Garopaba ter vilazinha, eu lembro dos pescadores, eu lembro que a gente que ajudava os pescadores a recolher a rede e depois ganhava de presente o peixe e levava limpinho em filé pra casa e comia. (Ela ri) E daí veio a faculdade.

JC: Tu entrou com quantos anos pra faculdade?
M: Vinte e poucos, por aí...

J: Eu li que tu foi filiada ao PT e depois se filiou ao PCdoB. Qual a tua relação hoje com a política?
MM: Agora, nesse momento, eu to assim em recesso com a política. Eu vivi a ditadura militar assim, já grandinha, eu não vi nada assim de ver gente ser presa, mas eu sabia que existia  que acontecia, que tinha esse clima, que era perigoso. A gente tinha que tomar muito cuidado, né, andando na rua e tal. Podia ser preso a qualquer momento por qualquer motivo sumir e desaparecer, e ai depois que passou a ditadura e a redemocratização do país eu me filiei ao PT acreditando, né, no partido, numa nova visão de sociedade, uma nova forma de governar, e, ao longo dos anos, fui vendo esse partido se transformar um partido igual aos outros... E aí, quanto ao PCdoB, foi no começo do governo Tarso Genro, um amigo me sugeriu: "Mary, te filia ao PCdoB que ai fica mais fácil tu pleitear alguma coisa no governo Tarso " e aí eu me filiei ao PCdoB  e através do PCdoB eu entrei na FM Cultura e ai não foi um bom relacionamento... Tanto que eles eram aliados na eleição do Tarso mas quando veio a eleição pra prefeitura eles se tornaram inimigos e aí ficou uma situação muito delicada pra mim e foi o que aconteceu, foi um processo meio chato assim... De te botar em situações que te obrigassem a pedir demissão, aquela coisa. Eu não pedi, esperei que fosse demitida, e foi o que aconteceu. Terminou eleição pra prefeito e eu fui demitida. Desde então eu to assim totalmente desligada de qualquer amor à qualquer legenda.

JC: Mas tu fez a campanha do Tarso nas ultimas eleições...
MM: Fiz a campanha do Tarso agora, a última, contratada como profissional jornalista. Não ganhamos, ainda bem (ri) e hoje eu procuro evitar qualquer ligação emocional com qualquer partido. Se tiver que trabalhar com partido vai ser como profissional na área e não como uma militante. Não sou mais militante de ninguém.

JC: Bom, na adolescência tu vivem em plena ditadura e tu tem tendencias de esquerda, como foi pra ti conviver e estudar esses ideais nessa situação?
MM: A a gente se divertia também, a gente se cuidava muito, a gente tinha reuniões políticas e tal e tudo meio quase clandestino assim, né. Mas eu, pessoalmente assim, nunca me encuquei muito com isso assim, mais frouxo, mais sem medo assim, nunca tive medo de polícia.

JC: Mas como eram essas reuniões?
MM: Tinham reuniões fora, na casa dos amigos.

JC: Já que a gente tá falando de política, o que tu acha dessa nova onda de impeachment,volta da ditadura, etc?
M: Em primeiro lugar (ela da uma risadinha) quem quer a volta da ditadura não viveu a ditadura, não viu o que é que foi, sabe... Censura encima né, e mesmo assim a gente conseguiu se divertir até porque na época a gente era tri jovem e não tem como não se divertir.

JC: Tem toda aquela rebeldia...
MM: Aquela rebeldia natural! Fazia parte do não levar a sério. Hoje, com o impeachment, se existe motivo para impeachment, que seja 'impixada'. Mas eu acho que isso ta sendo usado como arma de eleição, é um terceiro turno, o pessoal que não foi eleito agora...

JC: Aécio...
MM: Aécio neves! (ela ri) Vamos citar nome e sobrenome (ri ainda mais) eles não aceitaram! Eles querem um terceiro turno! E tem muita gente que tá nessa consciente com todo o direito de querer o impeachment da Dilma, mas tem gente que tá nessa achando que se cair a Dilma o Aécio assume e  tem gente que tá acreditando! E não é! Se a Dilma cai assume o Michel Temer! Que é o PMdB que não é um partido que dos mais, assim, corretos... Tá ai há anos! Eu acho que essa batalha ai, essa luta pelo impeachment, esse pessoal que quer a volta da ditadura militar não tem.. Não tem mais condições de acontecer isso. O impeachment até pode, mas a volta dos milicos nem eles querem .

JC: Mas mudando um pouco, tu realizou todos os teus sonhos como radialista? 
MM: Não. Não trabalhei na BBC de Londres. (Debocha rindo) Não! sabe qual é o meu sonho de radialista? É trabalhar até o fim, esse é meu sonho pra mim. O microfone ligado pra mim até o último momento.

JC: E hoje tu trabalhando em rádio?
MM: Não.

JC: E o que tá fazendo hoje?
MM: Nada, nada.  Mas to na luta, to atrás... É que o mercado tá muito pequeno, as empresas estão só demitindo, não estão contratando.

JC: Tu acha que tem algum porque disso?
MM: A crise econômica, né, o que tá no Brasil, essa incerteza  política também, não se sabe o que é que pode acontecer daqui a pouco... Eu acho que é a crise. Os donos das empresas de comunicação tem medo. Talvez esteja diminuindo também os anúncios, o anunciante. Tá pelo mesmo medo, né, de ser demitido.

JC: Tu acha que existem pessoas que controlam a informação? 
MM: Sim, sim, sim... A própria Zero Hora tem uma orientação que tu não pode sair da orientação deles, acho que cada veículo controla, puxa a brasa pra sua sardinha como se dizia antigamente... (Abre um sorriso) Não tipo um controle, tipo um órgão, tipo censura...

JC: Mas sobre manipulação...
MM: Manipulação acho que depende do dono do veículo, tipo a Rede Globo.

JC: Tudo depende da audiência...
MM: A audiência (Mary termina a frase junto comigo enquanto afirma com a cabeça). Tem todo um interesse político e econômico de dominar o setor.

JC: Até porque agora, não sei se tu viu e eu tenho visto pouco sobre isso, mas pelo que eu entendi a Zero Hora tá envolvida num escândalo  que eles não podem falar sobre e a gente acaba vendo pouco na mídia.
MM: Claro! Mas sim né! E eu também não vi , mas se tu souber tu me conta desse escândalo! A Zero Hora, a RBS tem uma dívida imensa, imensa! Talvez tenha haver com isso que tenha sido cobrado.

Ela coloca a pequena xícara de lado, ajeita as mangas da blusa preta com gola cortada em formato quadrado, cruza os braços e olha no fundo dos olhos enquanto faço a nova pergunta:

JC: Tu não tem filhos né, tu não é casada...
MM: Não, não.

JC: Tu sofreu alguma crítica por isso?
MM: Não. Eu não quis ter...

JC: Porque?
MM: Porque eu não seria uma boa mãe! (ela ri)

JC: Como assim?
MM: Eu não me sinto ter o instinto maternal sabe. Talvez eu tenha me arrependido há alguns anos por não ter tido filhos,  né, mas eu acho que hoje em dia eu realmente não teria. Colocar uma criança nesse mundo...

JC: Sim, é muita responsabilidade
MM: É muita responsabilidade e o perigo que ronda. Eu não colocaria, se bem que eu amo as crianças, os filhos dos irmãos, dos meus primos, eles são uns amores, são super inteligentes, Mas eu, eu, não teria a capacidade de aguentar essa responsabilidade, eu ia surtar!

JC:  É aquela coisa, não é porque tu não tem filhos que tu não goste de criança...
MM: Claro! Eu gosto deles! Eles são tudo! São o futuro da gente, mas eu não me sinto responsável assim...

JC: Então... Eu andei pesquisando por aí e eu acabei descobrindo uma história de um relacionamento teu com um baiano. Como que foi isso?
MM: (Ela gargalha) Tá! Eu tive um relacionamento com um baiano! Mas como é que o povo ficou sabendo?! Sim, foi um garoto que eu conheci em Salvador, no carnaval, me apaixonei, voltei a Porto Alegre depois voltei a Salvador por causa dele, mas não durou muito... Voltei, vim me embora pra Porto Alegre

JC: Quantos anos tu tinha?
MM: Uns 30 por aí... Ele ficou lá, soube que ele faleceu... Um lindo de um mulato, belíssimo, coisa mais querida o Valmir.

JC: E sobre os boatos de que tu era lésbica?
MM: (Ela dá mais uma gargalhada e esconde a cabeça entre os braços apoiados na mesa) Lésbica? Pelo amor de deus! Eu gosto de rapazes! (Ri esbaforida, toma um pouco de ar e retoma) Se bem que sou capaz de achar uma mulher bonita, e de sentir uma espécie de atração, mas nada a ponto de ter uma relação.

JC: E hoje, tu está em algum relacionamento?
MM: Tenho, tenho. Tem um garoto que mora comigo.

Sugeri então que fizéssemos um pingpong, eu dizia uma palavra e ela a primeira coisa que viesse em mente.

JC: Um momento: 
MM: Fórum Social Mundial no Anfiteatro Pôr-Do-Sol, eu apresentando o Rappa pra cem mil pessoas e tava começando umas brigas, né, ali na frente e aí eu disse "calma isso aqui é o Fórum Social Mundial, é  o fórum da paz, então vamos todos gritar, em 1 2 3 todo mundo vai levantar a mão pra cima e gritar paz tá? 1 2 3 e oooooh" aquele monte de gente, foi um grande momento...

JC: Uma música que te defina hoje:
MM: Viva la vida do Coldplay. É muito linda aquela música, é muito linda.

JC: Um livro:
MM: Cem anos de solidão do Gabriel Garcia Marquez.

JC: Uma polêmica favorita:
MM: (ela fica em silencio pensativa, dá de ombros e diz) Grenal, é claro. Não! Deixa eu ver, uma brincadeira que a gente fazia com o oasis, eu e o jimmi joe, a gente estava no meio de uma conversa ai alguém dizia assim "ah eu acho Oasis muito melhor que Beatles" e vinha "como que Oasis é melhor que Beatles?" e começava o blá blá blá e a gente ficava de fora vendo a briga e ai dizia "olha Zé do Belo é melhor que Oasis, Zé do Belo é melhor que Beatles" e a gente se divertia!

JC: Tua relação com cachorros: 
MM: Amor.

JC: E com  gatos: 
MM: Estranhamento.

JC: O time Internacional: 
MM: Grande time, Internacional...

JC: Grêmio:
MM: Ah eu não vou dizer! Eca! (Ela faz uma careta e ri) Um adversário, não um inimigo, um adversário...

JC: Futuro: 
MM: Futuro a Deus pertence.

JC: Passado: 
MM: Não dá pra mudar.

JC: A rotina da não rotina: 
MM: Instigante, divertida, expectativas, coisas assim.

JC: Uma pauta que surgiu de outra pauta:
MM: Ah. a minha pauta era de cruzar com o artista e colocar ele no ar, eu peguei o Chico Science foi uma das últimas entrevistas dele, botei ele no ar na Ipanema lá no Hollywood Rock.

JC: Pra finalizar então, tem alguma coisa pra dizer pra quem está estudando jornalismo agora, algo que não aprende na faculdade?
MM: Eu digo sempre a mesma coisa: humildade a palavra. Auto estima tudo bem, confiança,  tudo bem, mas humildade... Agora eu não sei se foi o Sócrates, foi ele sim o filósofo grego que disse a frase que é o meu mantra: eu só sei que nada sei. A única certeza que a gente tem é que a gente não sabe nada. Tudo precisa ser aprendido e visto de novo,  e a gente não pode, principalmente um repórter, chegar no lugar com a ideia pronta já, forjar a tua matéria, a tua ideia inicial. Não, a tua ideia inicial tu tem, tu não pode chegar com uma ideia pronta, depois que tu recolher tudo ai que tu vai ter a ideia, e mesmo assim pode não estar completo.

Mary Mezzari (E) e eu, Jubs Coin (D)

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