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25 junho, 2015

O futebol é supervalorizado


Por favor, não me vejam como uma pessoa contra o futebol ou qualquer tipo de esporte. Até porque eu adoro jogar uma partida de vôlei vez ou outra. Todavia, achei importante trazer um assunto que tem me preocupado nessas últimas semanas. 
Eu estava assistindo um noticiário regional e acabei notando o grande espaço que o futebol tem ganhado nos veículos de comunicação. Não o atletismo, não o basquetebol, sequer o handebol... Mas ele: o futebol. O esporte que aprendemos quando somos crianças, que nos torna apaixonado por algum clube ou admirar um certo jogador. Isto é, se existe uma hierarquia no esporte brasileiro, o futebol é o rei.
Talvez você nunca tenha se questionado o porquê dessa atividade tão corriqueira ser quase como uma lenda num país como o Brasil. Claro que tem tudo a ver com a nossa cultura e nossos antepassados, mas parece ser uma coisa maior. Um amor quase incontrolável, bêbado.
Eu não sei e não gosto de jogar futebol. Gosto de assistir algumas partidas e sou um torcedor do Internacional, mas não sou nenhum aficionado pelo esporte. E respeito quem é maníaco pela coisa, afinal cada um tem um gosto e se tivéssemos opiniões parecidas, o mundo seria uma grande porcaria.
O que quero trazer aqui é que apesar de todo esse amor, existe um problema grave no futebol que você pode não ter se dado conta: ele é supervalorizado. Não estou dizendo na parte afetiva, até porque assim como existem fãs do futebol, também existem os seguidores do bom e velho xadrez. Entretanto, ressalto a parte financeira.
Sim, o futebol proporciona ótimos momentos, mas é supervalorizado economicamente. Os jogadores, os clubes, e até o governo lucra e gasta com o futebol. São toneladas de dinheiro que poderiam ser utilizadas nas prioridades da nossa sociedade, como saúde, educação e moradia. Afinal, o futebol não é prioridade. Ele é uma prática desportiva, um momento de lazer. É um trabalho? Sim. Contudo, qual a importância dos jogadores de futebol se comparada com a importância de professores ou médicos? Será que estamos dando valor para o que merece ser valorizado e priorizado?
Não quero que você deixe de amar seu time ou tal jogador, mas quero que reflita comigo: é justo gastar tanto dinheiro com um esporte? Não seria melhor investir em postos e planos de saúde? Ou na educação, como num pagamento justo aos professores e na facilidade de acesso à faculdade?
Pense bem no que estamos dando atenção. Talvez estejamos tratando esse belo esporte de forma errada. É importante jogar, tanto para a saúde como para o lazer, mas também é importante preservar salas de aula e leitos de hospital.
Não coloque o futebol em primeiro lugar. Ele já tem o seu lugar no coração do país, mas não pode ser o principal.

12 junho, 2015

Armo

Neste ramo de flores há uma rosa.
O inclui na minha lista de viagem para Roma.
Não sei se vou pra lá primeiro ou procuro o mar.
Mas Maró disse que não gostava do mar.
E Omar completou dizendo que preferia Roma.
Agora não sei se dou minha rosa ao mar ou a Roma.
Mas sei que pro meu amor vou dar.
Talvez você não tenha notado aqui ou em Roma,
Mas o mar com certeza notou
Que no meio de todo esse ramo de frases
Existe uma só palavra: amor.

Amor fósforo e amor isqueiro

Crescemos escutando músicas, vendo filmes e lendo livros que contam histórias de amor. E existem sobre todos os tipo de amor e todos os tipos de casais. A menina rebelde, drogada, confusa e perdida na vida que é o sonho e o pesadelo do carinha que é escritor tímido e inseguro. O garoto mais desejado da escola que nunca olharia pra nerdzinha não-tão-popular. Tem também aqueles em que todos apostam que vão se casar, e ter filhos e ser eternamente felizes e que, no final, se separam. Os melhores amigos que tem tudo em comum e que todos querem que fiquem juntos, e no fim ficam. Aqueles casais que não existe quem queira ver como par. É uma infinidade, os bad boys, as românticas, os sensíveis, as heartbreakers. E mesmo com todos esses tipos, permanece algo em comum entre todos. 
Isso é real, todos temos amor. Se ele existe de fato, se ele pode ser conceituado, se ele foi criado ou é algo da natureza humana, bom, é uma discussão pra outra hora. Hoje é sobre como ele pode agir em nós. 
Eu classifico dois tipos centrais de amor: o fósforo e o isqueiro.
Já provei dos dois, conheço os prós e os contras de cada um, sei como identificar nas pessoas qual dos dois é mais provável de acontecer. E posso apostar que quem lê, ao menos uma vez na vida, já passou por algum deles (ou pelos dois).
Eu não vi. Não percebi. Quando notei, já tinha me apaixonado perdidamente, não conseguia pensar em outra coisa. Eu abandonei minha atmosfera e entrei em outro universo, em uma dimensão onde tudo era tão intenso e acontecia de um jeito tão rápido e avassalador que era como se eu estivesse voando durante uma tempestade. Existia não só essa paixão, mas o conflito, o medo, a insegurança, a vontade, a sensação de estar parado no tempo.
Se isso te fez lembrar de alguém, pode ter certeza, você experimentou do amor fósforo. 
O fósforo é justamente isso: algo normalmente rápido que incendeia do nada e apaga por qualquer coisa. É o Soneto de Fidelidade, do Vinicius de Moraes. Basta uma fricção, basta um pequeno impulso e já acontece com facilidade, cria uma chama alta e intensa que se apaga aos poucos e, no fim, deixa só a marca de que ali esteve e ali existiu. 
Diferente disso, existe o amor isqueiro. É aquele quando você ama uma pessoa, ama estar com ela, se sente bem em não fazer nada e também em fazer tudo. É quando existe briga e uma reconciliação, quando os dois correm atrás, quando um não quer perder o outro. É aquilo que dura, que ás vezes demora um pouco pra acontecer, mas, quando acontece, dura anos.  
O isqueiro é isso, se apaixonar gradativamente, cada vez mais, e todos os dias simplesmente existir ali aquele fogo bonito, radiante e incandescente. São aqueles casais que só precisaram de um pouco de insistência, de pressionar o disparador algumas vezes (talvez) e então fazer surgir ali algo lindo. É o tipo de amor que só termina quando o fluído acaba ou um dos dois resolve tirar o dedo. É o amor que, depois que acaba, não deixa marcas, mas espaço pra começar algo novo, só precisa de um gás novo.
A questão tempo varia, já vi isqueiros durarem meses, já vi fósforos brilharem por anos. 
Independente do tipo de amor, o que precisamos mesmo é realmente amar. Não é por não querer estar solteiro ou sozinho, não é por pena, não é por carência que se fica com alguém. É porque se ama.
O amor só não é chama quando não é verdadeiro. Amor marca, amor fica, amor vai. Amem realmente e não aparentemente. 
Fósforo ou isqueiro. Qual é o seu amor?

10 junho, 2015

“Eu sou muito feliz no meu trabalho, mas às vezes dói”

Tulio Milman fala sobre carreira, como lida com o estresse e opina sobre o jornalismo atual



E

ram 14h32min quando eu cheguei no prédio do Grupo RBS, apreensivo e tentando me manter tranquilo. O mal da ansiedade que eu nunca controlei dava suas caras.
Logo que entrei me dirigi à recepção, me identifiquei e decidi esperar sentado numa poltrona na sala de espera. Abri a Zero Hora daquele dia (terça-feira, 02 de junho de 2015) e logo na primeira página encontrei o Informe Especial, assinado pelo jornalista com quem em minutos eu iria conversar.  O quê não demorou muito, pois cerca de dezoito minutos depois, fui chamado e embarquei no elevador a fim de chegar o mais rápido no quarto andar, onde Tulio Milman me aguardava.
Já no quarto andar, andei calmamente até a sala de redação da ZH, passando pela entrada da Rádio Gaúcha e me deparei com uma mesa grande cheia de livros sobre ética jornalística. Lá estava ele: Tulio Milman, falando ao telefone, tentando explicar algo a um leitor. Logo que me viu, cumprimentou-me com um aperto de mão e fez sinal para que eu esperasse. Estava tentando dispensar o leitor com quem já conversava há uns vinte minutos e me fez mais um sinal. Dessa vez, quis dizer que já não aguentava mais falar e falar com aquele leitor.
Depois que acabou o diálogo, me cumprimentou mais uma vez e comentou que adora quando um leitor liga para interagir com ele, mas que existem alguns que não param de falar. Riu e brincou: “Isso tu não coloca na matéria”. Com aquela brincadeira já me senti confortável para iniciar a entrevista, a qual virou um papo bem agradável, passando rapidamente por fases de sua carreira - recordando momentos e gerando opiniões sobre determinados assuntos.
O jornalista, com 47 anos de idade e “24 ou 25 de profissão, não lembro” conta quais foram suas influências para seguir na profissão, o que acha do tão comentado diploma de jornalista no ramo e fala abertamente como foi sua saída do Teledomingo, programa o qual apresentou por quatorze anos. Também disse que o jornalismo o faz feliz, mas não sempre, e que não têm arrependimentos na carreira.

FELIPE VICENTE: Quais os motivos que te influenciaram ao Jornalismo?
TULIO MILMAN: Primeiro, eu sempre gostei muito de escrever, e meu pai começou a vida como locutor de rádio. Depois ele comprou um pedacinho de uma rádio, então lembro um pouquinho de quando eu era criança e ia com ele até a rádio, de certa forma vivenciando do ambiente do que era o jornalismo na época. Acho que essas duas coisas juntas, basicamente.  Depois ele largou a profissão, foi ser advogado, mas tenho essa lembrança.

FV: Onde se formou e no quê se especializou?
TM: Me formei na PUCRS e depois fiz duas pós-graduações: uma em Marketing e outra na área de Recursos Humanos, que não tem nada a ver diretamente com jornalismo, mas sempre vai te dar informação, visão de mundo, e acho que isso é importante para a profissão.

FV: Um ponto positivo da profissão?
TM: O jornalismo é muito variado, depende do que tu vai fazer. Na minha experiência, o que eu gosto no jornalismo é a possibilidade de tu estar em vários lugares, tu cair em várias situações que sem o jornalismo tu não cairia. É a possibilidade de cobrir vários eventos, conversar com pessoas legais, estudar assuntos diferentes, de se expandir como pessoa e profissional. Pra mim, o jornalismo é isso: é pluralidade, é variedade.

FV: E um ponto negativo?
TM: O jornalismo que eu faço, o de massa, é um mercado que tá encolhendo, um mercado com cada vez menos oportunidades. Isso é um limitador na profissão e tem uma série de reflexos. Inclusive em remuneração. Claro que a gente tá entrando muito forte no digital, mas mesmo assim ele é um mercado em crise “barra” transformação.

FV: Concorda com a teoria de alguns jornalistas que afirmam que o término do jornal impresso vai acontecer por causa do on-line estar roubando o seu lugar? 
TM: O fato de ele perder lugar não significa que ele vai terminar ou que ele não tenha capacidade de se reinventar. Quando olhamos para a história da comunicação, seja do jornalismo ou outro tipo de mídia e entretenimento, nunca um nascimento de uma mídia nova matou a anterior. Dizia-se que a TV mataria o rádio e o cinema, e não matou. Dizia-se que a internet iria matar a TV, e não matou. Essas plataformas têm que se reinventar e encontrar novas funções. Acho que o jornalismo impresso tá nesse momento. Ele precisa definir uma nova função. Ninguém tem uma resposta clara ainda, porque a gente tá no meio dessa confusão, mas eu acho que essa resposta vai aparecer. Já está aparecendo, aqui e ali, uma ou outra coisa não muito clara. Não acho que o jornal impresso vai acabar. Ele pode se redimensionar. Por exemplo, diziam “o CD vai matar o vinil” e o CD não matou o vinil, “a música digital vai matar o CD”, mas agora voltou o retrô do vinil. As coisas são muito dinâmicas e acho que tem espaço pra tudo. Tem que encontrar seu nicho, sua vocação.

FV: Qual a área que mais se identifica no jornalismo?
TM: Desde a época da faculdade eu quis quebrar essa lógica. Acho que o jornalista é um especialista em comunicação. Se tu vai apresentar em TV, rádio, internet, sinal de fumaça, telepatia... Isso tu aprende. E para isso, tem que ter domínio da língua, bom relacionamento com fontes, tem que ter ética, credibilidade. Eu me identifico em apurar, organizar, colher informação, hierarquizar, dar sentido na informação e opinar sobre ela. Esse é o meu trabalho, a forma como eu vou fazer isso é secundária.

FV: Isso também vale para os assuntos?
TM: No meu caso, sim. Têm vários tipos de jornalistas e eu sou um jornalista generalista. Eu falo sobre todos os assuntos, é 360 graus. Eu gosto de aprender e tratar de temas diferentes, mas é o meu jeito. É o jeito que eu me posicionei, é o que eu consigo fazer. Eu não consigo me ver como um jornalista especialista, acho que eu não seria feliz se fosse um. Eu gosto de estar aqui e lá, falar sobre um assunto, falar sobre outro, ir e voltar. Isso é o que me faz feliz.

FV: Como essa variedade de temas influencia sua rotina?
TM: Totalmente, porque dependendo do dia, eu tenho que estudar um assunto e no outro dia tenho que estudar outro. Pode ser um assunto que eu já conheço, mas também pode ser um assunto novo que eu tenho que explorar. O meu trabalho é muito voltado para a diversidade da informação. E não só coletando a informação exclusiva, mas organizando. Hoje em dia a função do jornalista, cada vez mais é fazer a curadoria: hierarquizar, dizer o que é importante e o que não é importante, estudar a informação, selecioná-la, dar sentido e organizá-la. Informação tem de sobra, tem muita informação no mundo e não há dificuldade de acessá-la. É tanta informação que tu tem que dizer pro teu leitor “olha isso aqui que legal!”, “olha esse tweet aqui, que engraçado!”, “vamos ligar essa informação aqui com essa outra... notou que isso tem a ver com aquilo?”.

FV: E com essa rotina bastante agitada, como lida com a pressão do trabalho e o estresse?
TM: É um tipo de estresse muito difícil de quem não faz o que eu faço, entender. Por exemplo, nas colunas cada uma tem suas vantagens e desvantagens, mas uma vantagem também pode ser uma desvantagem. A coluna de gastronomia só pode falar sobre gastronomia e geralmente é feita por quem já conhece isso, estudou, conquistou isso e sempre se renova, mas que não pode falar sobre outras coisas, apenas gastronomia. Então a evolução dele e o desafio dele são em pequenos passos. E no meu caso, falar sobre todos os assuntos te exige um conhecimento e um esforço muito maior. Algumas vezes caio em um tema que eu nunca vi na vida. Tenho que realmente parar e estudar sobre.

FV: E quais as características que tu achas que um jornalista deve possuir?
TM: Depende, se o cara é, por exemplo, um jornalista que vai empreender, ele tem que ter um tipo de característica, que está ligada ao empreendedorismo, a relacionamento, a capacidade de gestão. Se for um cara que vai produzir conteúdo digital, é outro tipo de característica. Entretanto, a primeira característica básica para um jornalista é a capacidade de compreender antes de julgar. Eu posso não gostar de música sertaneja, mas tenho que compreender o fenômeno da música sertaneja no Brasil. Eu não posso dizer que é ruim, só não é o tipo de música que eu escuto, mas tem um fenômeno aqui. Entender toda uma cultura popular, um mercado de shows, de discos, de comportamento, de roupa, de atitude etc. A segunda é o domínio básico da língua portuguesa, nossa ferramenta de trabalho. Tem que saber expressar tuas ideias, pegar aquilo que pensou, esquematizar e pôr em palavras. Acho que isso vale pra qualquer área do jornalismo.

FV: Depois de quatorze anos à frente do Teledomingo, como foi pra ti deixar a atração?
TM: Foi um processo natural, acho que depois de quatorze anos eu já tinha feito tudo o que precisava ser feito ali. Não foi nem um desgaste, não houve briga, o programa estava indo bem de audiência, de patrocínio, só estava ficando chato pra mim. Alguém sugeria tal coisa, já tinha sido feito e não tinha dado certo. Acho que cumpri meu ciclo ali no Teledomingo. Foi maravilhoso, foi ótimo, mas eu já tava pedindo uns dois anos pra sair, daí a gente tava vendo e analisando isso. Então surgiu a oportunidade de fazer outra coisa, eu achei que tava na hora de eu realmente buscar outros ares, me renovar. Agora também pedi pra sair da Rádio Gaúcha em que eu fazia comentários de manhã e comecei a fazer comentários no Jornal do Almoço, e também tenho a coluna que eu to há uns seis ou sete anos na Zero Hora. Tem que se reinventar de tempos em tempos, para não ficar acomodado no que deu certo, buscar coisas diferentes e abrir espaço para pessoas que estão chegando com novas ideias.

FV: Tu já viajaste muito, não é?
TM: Depende do que é muito... Depende da comparação (risos). Eu acho que eu viajei pouco. Queria ter viajado muito mais.

FV: E qual o lugar que mais te impactou ou o que mais gostou de ir?
TM: Pra mim, a cidade que me surpreendeu foi Jerusalém. É uma cidade especial no mundo, mágica. Eu não sou um cara religioso. Tenho uma ligação cultural com o judaísmo, mas não sou uma pessoa que vai à sinagoga rezar. E aquela cidade tem uma energia única, de uma cultura muito diferente, de história, de beleza. Um lugar que foi bem impactante pra mim. Toda a história daquela cidade, daquelas pessoas e do que aconteceu ali tornou a cidade muito diferente.

FV: Tu começaste como repórter de política no Correio do Povo. Pode relatar alguma situação que te marcou no início da carreira?
TM: Teve uma situação bem marcante de início de carreira, em uma das primeiras matérias que eu escrevi. Era sobre uma eleição municipal e tinha um candidato que entrou com uma reclamação no TRE porque na urna que a mulher dele votava, não tinha aparecido nenhum voto para ele. Não me lembro se era candidato a vereador ou prefeito. Na época, fiz uma nota e uma piada em cima disso. Mas fizeram a recontagem dos votos e apareceu o voto da mulher, fazendo o cara vir pra cima de mim, bravo. E eu, com a maior tranquilidade, publiquei que haviam achado o voto, pedi desculpas e disse que foi uma brincadeira. Aquilo no começo da carreira foi um aviso para que cuidasse antes de brincar e esperasse para ver o que podia acontecer.

FV: Ocorreu um mal entendido com o Brizola em uma entrevista que ele deu pra ti, como isso aconteceu?
TM: Fui fazer uma entrevista com o Brizola e por sugestão dele, não gravei a entrevista. E eu tinha aqui na ZH um diretor de redação que editou a entrevista, e acho que ele foi infeliz na edição. Ele mexeu na entrevista, valorizou alguns pontos que não tinham tanta importância e o Brizola não gostou. Então ele mandou uma carta pra redação pro Nelson Sirotzky, que era o presidente, pedindo a minha demissão, dizendo que eu tinha mentido na entrevista. Dessa forma, o diretor de redação disse que iria segurar a onda e realmente ele segurou a onda. A gente publicou a carta do Brizola. Um tempo depois, fui fazer outra entrevista com ele. No mesmo dia, fui visitar a minha namorada, deixei o carro na frente da casa dela e roubaram o gravador de dentro do carro. Eu não tinha fita, me apavorei. Então liguei pro doutor Sereno Chaise que na época era presidente do PDT, e na terceira ou quarta vez quem atendeu foi o Brizola, deu uma debochada e me deu toda a entrevista de novo. Foi muito generoso, podia ter me detonado. E eu com dois gravadores pra não ter perigo de não ter a gravação novamente.

FV: Como foi pra ti cobrir as Olimpíadas de Barcelona em 1992?
TM: Foi um sonho. Nas Olimpíadas de 1992, além de cobrir, eu fui convidado a trabalhar nela. E apesar de não ser uma pessoa religiosa, na Vila Olímpica tinha um centro ecumênico, com uma igreja católica, uma igreja protestante, um templo budista, uma mesquita e uma sinagoga. E cada religião tinha dois agentes pastorais lá. Um amigo iria ser um agente pastoral da sinagoga e me convidou para acompanhá-lo e eu fui. Morei dentro da Vila Olímpica, e ficava muito perto do pessoal do Brasil. Então os meus ídolos do vôlei e basquete eu encontrava no meio da Vila Olímpica. Foi uma experiência muito legal ver um evento daqueles e estar participando da forma como eu participei. Uma oportunidade muito bacana. Inesquecível.

FV: Tu tens uma ligação forte com o esporte? Pratica algum?
TM: Pratico e já pratiquei vários esportes. Eu jogava futebol quando era garoto, depois joguei vôlei, treinei no União e na seleção da PUCRS, fiz parte do time do Colégio Farroupilha... Também joguei tênis por oito anos, de forma amadora, claro. E agora eu gosto de correr, eu pratico com certa regularidade corrida. Acho uma atividade muito interessante e importante no meu equilíbrio poder praticar esporte e assistir pra extravasar um pouquinho das minhas loucuras (risos).

FV:Em relação à corrida: tu já correste a maratona de Porto Alegre, não é? 
TM: Não, não. Vou correr agora, no dia 14 de junho. Estou na fase final de treinamento para isso. Já corri três vezes metade das maratonas de Porto Alegre, e agora vou fazer a maratona completa.

FV: Depois de escrever um livro com o publicitário Heitor Kramer (Vença com a Mídia, editora Artes e Ofícios, 135 páginas, 2002), pretende lançar outra coisa no ramo da literatura? 
TM: Sim. Não tenho muita coragem nem inspiração, mas pretendo. Eu queria lançar um livro, já até tentei me mexer em relação a isso, mas não consegui. Não é o momento ainda. Acho que vai chegar o momento certo, e tenho essa ambição.

FV: O que tu acha que os jornalistas não aprendem na faculdade? 
TM: É uma boa pergunta (risos). Eu poderia dar uma resposta bem óbvia dizendo que a prática não se aprende na faculdade, mas não. Creio que o relacionamento com fontes não é muito aprofundado na faculdade. Tem teoria sobre isso e um ou outro trabalho que tu entrevista, mas todos os dias tu tá conversando com pessoas e colhendo informações. Só na prática se aprende como funciona a relação com a pessoa que te dá informações. Ao mesmo tempo, tu tens que ser leal a essa pessoa, mas não pode protegê-la. Tem que ter uma sintonia grande pra entender o que ela está dizendo, aonde ela quer chegar, qual o teu limite na conversa... É uma coisa que tu vai errando e sempre aprendendo, porque estamos falando de pessoas, de como lidar com pessoas.

FV: Qual tua opinião sobre a falta de diploma para exercer o jornalismo? 
TM: A princípio, não acho que seja necessário o diploma para exercer o jornalismo, mas se eu fosse dono de uma empresa de comunicação ou chefe de redação, por exemplo, iria dar preferência para contratar quem tem o diploma. Eu acho que é uma questão muito mais simples: o cara que é mais bem preparado, teoricamente vai ser o melhor. É uma discussão meio inócua. O diploma naturalmente é importante, mas não gosto muito da ideia de ele ser obrigatório. O Falcão, por exemplo, não fez faculdade de jornalismo e ele fala na TV sobre um assunto que ele conhece totalmente. E é isso, o jornalista sem o diploma tem que ter um conhecimento do assunto que vai falar e ter noções de ética, legislação. Não sei se precisa uma faculdade de quatro anos para isso.

FV: Tens algum arrependimento ou mudaria algo na carreira? 
TM: Não, eu tive que tomar algumas decisões. Uma delas foi ficar no Rio Grande do Sul e não ir pra outros estados, mesmo tendo oportunidades pra fazer isso. Sempre tem aquela pontinha de dúvida em saber que rumo minha vida teria tomado se eu tivesse ido para São Paulo ou Rio de Janeiro, mas não é algo que eu me arrependo. Gosto de Porto Alegre, gosto de morar aqui. É onde estão a minha família e meus amigos. Pra mim, isso é muito importante e não tem salário no mundo que pague o fato de estar perto da família e dos amigos. Eu não quero ser estrangeiro, eu quero ficar onde eu seja conhecido, onde eu tenha essa rede de suporte afetiva, onde estão as pessoas que eu conheço, que gostam de mim e que eu gosto. São coisas que dinheiro não compra.

FV: E profissionalmente, acha que realizou tudo o que pretendia ou tinha vontade? 
TM: Nunca! Sempre estou buscando novos caminhos, inclusive acho que tenho que me aperfeiçoar no jornalismo digital agora. Eu sou um cara que transito bem nele, mas nasci no analógico e tenho que melhorar muito no digital ainda. Já estou procurando um curso para fazer, não sei se no Brasil ou fora... Mas não, nunca vou realizar tudo. Até porque se eu realizar tudo, pego o meu chapéu e vou embora, me aposento (risos).

FV: Pode dar uma dica para quem quer fazer jornalismo ou acabou de sair da faculdade? 
Dica é um negócio complicado, porque daqui a dez anos minha dica já vai estar velha. Eu posso dizer para que não caiam nessa conversa, nesse papo furado de que “eu sou feliz porque só faço o que eu gosto”. Não existe trabalho que tu faça só o que tu gosta, talvez depois de vinte, trinta anos quebrando pedra na profissão. O Jô Soares, por exemplo, já trabalhou dia e noite, escreveu nota de obituário, levou bronca de chefe e hoje em dia tá tranquilo, no canto dele, fazendo o que ele gosta. Para crescer na profissão tem que fazer o que não gosta, pensando lá na frente. Tem que ter mais prazer do que dor, mas a dor é inerente, ela vai existir. Terá momentos em que tu estarás feliz e momentos que tu estarás infeliz. É uma profissão como toda outra. Têm tropeços, têm caminhos pra enfrentar, então esteja bem preparado. Claro que tem muito mais alegria do que dor. Eu sou muito feliz no meu trabalho, mas às vezes dói.

PINGUE PONGUE:

Família: É a base de tudo. É a rede de apoio e de proteção.

Carreira: Parte do todo. É um pedaço do meu equilíbrio.

Um sonho: Ver o Internacional ser campeão do mundo de novo.

Um programa de TV: Jornal Nacional. É um pedaço da história do meu país.

Um programa de rádio: Timeline Gaúcha. É um programa que eu adoro ouvir.

Uma pessoa brilhante e que gostaria de conhecer: O Papa Francisco. Gostaria de bater um papo com ele.

Uma frase ou lema que tu leva para tua vida: Sempre quando algo dá errado ou acontece uma coisa ruim, eu sempre digo “que sejam esses os nossos problemas”. Se furar o pneu do meu carro, que seja esse o meu problema! Afinal, poderia ser uma coisa pior.

Quem é Tulio Milman? Tulio Milman é um ser humano com todas as qualidades e defeitos que tu encontra por aí. Mais defeitos que qualidades, como qualquer pessoa.

O jornalista Tulio Milman (direita) e eu, Felipe Vicente (esquerda).

Mary Mezzari: O Limite é a Verdade

Mary Beatriz Silva Mezzari. Esse é o nome completo de uma das mais conhecidas radialistas da capital gaúcha que, com seu jeito irreverente e sincero, vive seu sonho de infância sendo comunicadora. A entrevista aconteceu num café no bairro Bom Fim, onde, à meia-luz, os sofás e poltronas combinavam harmoniosamente com com os quadros vintages das paredes e a musica que tocava, dando a impressão de que fomos teletransportados para um pub inglês.
Logo que Mary Mezzari chega e eu a cumprimento com um "Tudo bom? Como a senhora está?" ela já demonstra toda sua atitude rindo e soltando a frase "Não me chama de senhora! Me chama de Mary, de tu, mas não de senhora!". Nos sentamos, ela pede um café pingado e então começamos a entrevista.

Juliana Coin: Vamos começar falando sobre o teu lado profissional, a tua carreira,  como ela começou?
Mary Mezzari: Ela começou assim ó: eu fui uma criança precoce. Eu decidi que eu ia ser dessa área da comunicação bem cedo, oito ou nove anos eu já tava na minha cabeça o que eu queria ser, ai eu me direcionei pra isso. Eu sou do tempo do clássico, antes da faculdade tinha o clássico e cientifico, e eu já fui pro clássico. Já me encaminhei pra área das humanas e eu comecei já tava na faculdade, comecei trabalhando em jornalismo gráfico como estagiária-faz-tudo no jornal da semana, que era um jornal semanal de um grupo de Novo Hamburgo. Foi aí que eu comecei.

JC: O ensino clássico e científico era dos vestibulares da UFRGS antes, onde tu cursou jornalismo, né?
MM: Exatamente. Cursei na UFRGS, na Fabico.

JC: O que te levou a querer jornalismo? Tu foi uma criança precoce, mas o que te fez querer isso?
MM: A minha família gostava muito de ouvir rádio e ver jornal,  então eu sempre tive o costume de ficar ouvindo o rádio ligado, eu aprendi a ler no Correio Do Povo assim, juntando letra com letra, botava o Correio Do Povo no chão e deitava encima dele, e eu aprendi a ler ali, né. Quer dizer, exercitei o aprendizado ali. E depois eu tinha algumas pessoas que eu admirava no rádio, como o caso na Guaíba que era a rádio que era top na época, eu gostava muito do estilo de jornalismo que eles faziam. Na época também tinha uma jornalista italiana, Oriana Fallaci, que ela entrevistava os grandes homens da época e eu tinha muita vontade de ser como ela e eu me inspirei por isso, por gostar de rádio, de jornal.

JC: Então tu sempre pensou no rádio, desde a infância?
MM: É, é.

JC: Qual a parte boa de trabalhar no rádio?
MM: A parte boa é tu poder te soltar, tu não depender da tua aparência, de como tu tá vestida, da tua cara. É tu poder exercer o teu trabalho quase que no anonimato assim, né. Tu não é vista como uma pessoa que trabalha em televisão, por exemplo. Essa é a parte boa, de se esconder e de brincar com a imaginação das pessoas. E o legal do rádio assim é também a velocidade. Hoje a internet chega até a bater o rádio em alguns momentos, mas o rádio ainda é a mais acessível das mídias que tu pode assim... Falar imediatamente um fato acontecido. Sei lá! Caiu um avião ali na redenção, eu pego um celular, ligo pra minha rádio e pum! Caiu um avião na redenção. Foi dada a notícia. O da internet o cara ainda tem que acionar o computador dele. É a velocidade.

JC: E qual a parte ruim?
MM: O que que é ruim no rádio? Olha, eu acho que nada! Nada! Não vejo nada de ruim em princípio (risos) .

JC: É uma paixão tão forte...
MM: É tão forte que eu não vejo nada de ruim. Nada, sinceramente.

JC: E outra do rádio, tu também tem uma certa privacidade...
MM: Exatamente, mas quem tem ouvido bom reconhece a voz.

JC: Já te reconheceram pela voz?
MM: Já! Se eu pedir, se eu chamar um garçom ou chegar num banco, "ah! eu te conheço!". Mas tem que ter ouvido bom.

JC: Quais rádios tu já trabalhou?
MM: Eu trabalhei na rádio Ipanema, como locutora. Tá! Na rádio Ipanema, na Itapema e na FM Cultura. Como jornalista só de texto, nessas três mais a Gaúcha, a Guaíba e na Difusora também. A Difusora não existe mais, é a Band hoje.

JC: Bom, tu trabalhou na Ipanema e tu saiu de lá né?
MM: Sim, faz um tempinho que eu saí de lá já, faz uns quatro anos.

JC: Porque saiu?
MM: Ah, pergunta pros diretores! (ela ri) A Ipanema, que é da rede Bandeirantes, vinha sofrendo pressões desde o começo, pressões pela audiência, aquelas coisas né, porque uma rádio, uma rádio comercial, precisa ganhar dinheiro e tudo aquilo. Aí houve um pedido da direção de São Paulo que fosse demitido uma das pessoas que tivessem um salário bom e aí o diretor foi obrigado a quase tirar no palitinho, assim, quem seria e caiu eu, depois veio... Depois de mim o Cláudio Cunha, que também foi demitido, antes de mim a Katia Suman...

JC: Ah  ela foi antes de ti?
MM: Sim, ela foi antes de mim. Eu ainda sobrevivi lá na rádio da geração Katia.  E é, foi isso. Foi a questão alegada, foi contenção de despesas.

J: E tu viu que agora a Ipanema acabou né?
M: Infelizmente. Eu ouvi a última transmissão, fiquei ouvindo até a meia noite , chorei (ela dá um riso entristecido). Eu não fazia mais parte da coisa, mas como eu ajudei a construir e fiquei tanto tempo lá, né, foi triste ouvir o final. Eu entendo as razões corporativas da bandeirantes, mas eu acho que poderia ter outro jeito, outra solução e não o fim da rádio Ipanema. Foi chorado, né? Eu acho que a Bandeirantes em São Paulo nunca entendeu exatamente o que era a rádio Ipanema, a diferenciação que ela tinha, a relação que ela tinha com a cidade, a relação que a Ipanema tinha com os moradores de Porto alegre e no interior, onde pegava.

JC: Sim, até porque é, ou era no caso, uma das principais rádios de Porto Alegre que tinha uma legião de fãs...
MM: Sim! Tinha seguidores, exércitos!

JC: Tem pessoas que tem tatuado o simbolo da Ipanema!
MM: Isso mesmo! (conta empolgada) Tem gente que tá viúva! Agora mesmo eu li no facebook "Ah Mary todos os dias eu ligo o rádio pra procurar a Ipanema e não tem mais". Eu acho que a rádio Bandeirantes errou, poderia manter a rádio de outro jeito .

JC: E isso talvez seja uma grande perda pra eles né? Até porque é uma questão de história, quase uma família.
MM: Foi, foi. O público, não sei se eles retomam. Vai ser bem difícil, a relação era quase de família

JC: Bom, tu trabalhou  bastante com rádio e trabalhou bastante com música, qual a diferença de trabalhar com música e com o jornal escrito, impresso, direto? 
MM: Ah, jornal é aquela dureza né, é mais duro (ela posiciona as mãos como se segurasse uma caixa enfrente ao corpo), e com o auxilio da música tudo fica mais fácil né, tu pode ilustrar algo com a música, falhou alguma coisa aqui na tua programação, tu larga uma música. A diferença é de linguagem né... A música fala de um jeito e o texto fala de outro jeito.

JC: E já que falamos em música, qual tua música, tua banda favorita, qual teu estilo?
MM: Rolling Stones. Desde que eu conheci o Rolling Stones eu comecei a ouvir nunca mais parei de acompanhar. Eu gosto de rock n' roll, gosto muito de rock n' roll... Mas não sou  defensora da cruzada, ate gosto de samba, adoro um bom samba, gosto de música erudita, até de um certo funk  dependendo do funk eu gosto, não aquele funk proibidão do Rio, mas tem um tipo de funk que, aqui no Brasil tem isso que é bem interessante, né. O hip hop também...

JC:Tu acha que jornalismo deve ter um limite? Uma questão mais ética assim...
MM: Eu acho que os limites são as leis que tem, não sei se tem uma lei específica, mas que protegem as pessoas de alguma injúria, difamação. Acho que o limite é esse. O limite é a verdade, sem a verdade não existe jornalismo, aí é fofoca.

JC: Claro, aí é como aqueles tablóides americanos, por exemplo.
MM: É, aqui no Brasil tem também, tem tv que é assim...

JC: A Tititi é assim, né?
MM: A Tititi, Contigo, Minha Novela, todas .

JC: Agora quanto ao impresso, tu acha que, com o avanço das mídias, é possível que ele acabe?
MM: Acabar não, mas que ele vem diminuindo, vem. Aqui no Brail, o Jornal do Brasil, um jornal do Rio de Janeiro foi um dos maiores jornais dese país e ele só é virtual agora.

JC: Isso aconteceu com outros jornais aqui do rio grande do sul também...
MM: Tem outros, de cabeça eu não me lembro, e eu acho que é uma tendencia. Ele diminui mas acho que aquele artigo grandão, ninguém lê um artigo grandão na tela do computador, eu não tenho saco de ler,  dói o olho! Nem um livro na tela do computador, não! Acho que ele tende a diminuir com essas mídias, a internet a mil chegando no mundo inteiro mas eu nao gostaria que acabasse, eu acho que não acaba...

JC: Até porque tem uma magia...
MM: Tem a mágica de abrir o jornal, de dobrar, de pegar uma caneta e marcar, eu... Eu não queria que acabasse. Mas sabe-se lá como vai ser no futuro de repente não vai ter mais árvores pra fazer o material do jornal né, não sei (ela abre um sorriso e dá de ombros).

JC: Tu acha que tem algum tipo de "salvação", algo que resgate o público que o jornal impresso tinha antes?
MM: (Ela pensa um por um tempo) Olha, se for uma especialização... (continua pensativa)

JC: Porque, por exemplo, a Zero Hora agora cada vez mais parece com uma revista...
MM: Tá tornando-se cada vez mais revista, mas aí falta aquele artigo de fundo, aquele material mais profundo, mas aí vai pra revista também. Não sei, sinceramente não sei. Baixar o custo, tornar mais barato, distribuir como o Metro, que eles distribuem, não vendem. Talvez por aí. E ganhar na publicidade. Baixar o preço e ganhar na publicidade. Por aí.

JC: Bom, tu é uma pessoa que trabalhou com comunicação sempre, muita gente te conhece pela rádio Ipanema como a gente falou antes. Em algum momento tu já te sentiu como uma celebridade?
MM: (Ela ri) Eu já me senti sim. Em pouquíssimos momentos. Em shows, claro. Na beira do palco tem 5o mil pessoas e tu lá. É de se sentir o máximo né! Mas assim, eu não me coloco na posição de ser uma celebridade, não tenho nenhum cuidado, assim, com exposição. Mas é claro que tu tem uma certa... Que  tu levanta a cabeça no geral quando tu trabalha na mídia. É a questão do glamour da mídia, né... Que te torna.

JC: Falando em show, tu estava na Ipanema quando tinham aqueles shows no Anfiteatro  Pôr-Do-Sol, né?
MM: Sim! Sim! Maravilhosos shows!

JC: E não fazem mais agora, o último foi no Opinião, certo?
MM: Não mais né, agora a rádio acabou, não tem mais Ipanema. (Mary ri) E foi no Opinião, porque a Ipanema faz aniversário junto com o Opinião, elas são do mesmo ano, tem a mesma idade, acho que é por isso. Não sei se esse ano que passou, que é sempre por outubro, novembro, não tava mais sendo feita.

JC: É, eu vi boatos de que durante esses shows promovidos pela Ipanema, tinha muita violência acontecendo na platéia, e que ficava por responsabilidade da Ipanema, que era por isso que fizeram no Opinião...
MM: Sim, sim, mas o que fazer né? Melhor não fazer então, né. Foi questão de segurança eu acho. Por que tinha realmente... Aquele lugar ali é enorme e tem matos por perto, né, que dá pra se esconder e quem tá afim de fazer maldade faz na redenção ao meio dia, como aconteceu com a guria, um horror! Mas acho que a grande motivação foi o financeiro. Se tivesse grana pagava mais segurança, botava mais gente. Acho que foi o financeiro

JC: Até porque é a Bandeirantes né...
MM: É, caixa única (solta uma risada).

JC: Se tu pudesse e quisesse mudar alguma coisa na tua carreira, o que tu mudaria?
M: (Pensa por um certo tempo) Talvez dar mais força pro lado atriz. Eu fui atriz por um certo tempo, fiz uma peça de teatro

JC: Sério?!
MM: Sério! Uma peça inspirada em um livro do Bukowski dirigido pelo Humberto Vieira, tinha o Zé Adão Barbosa e fiz também uns curtas, umas coisas de televisão. Gostei do assunto, gostei de apresentar.  Devia ter investido mais na carreira de atriz.

JC: Trabalhou só essa vez como atriz?
MM: No teatro, sim. Cinema e TV mais algumas vezes.

JC: O que tu trabalhou na tv?
MM: Eu fiz algum daqueles curtas da Globo, que era um por dia, da RBS. Fiz o Pois é Vizinha e fiz também um outro curta da Maria Angela Abraão chamado Quadrilha (ela fala com entusiasmo) Que é inspirado naquele romance do Carlos Drummond de Andrade, fulano que amava fulano que amava fulano que... E eu era a Lili, que era a última da história.

JC: Agora vamos pra um lado mais pessoal, conta um pouco sobre a tua infância e adolescência, onde tu cresceu, coisas que tu lembra...
MM: Tá. A minha família morava em Petrópolis, na rua Itaqui, do lado de onde hoje funciona um bar, barba negra, barba azul, alguma barba dessas... E eu passei a minha infância entre Petrópolis e eu lembro que a gente foi morar lá na beira da praia e, ah! Eu lembro de uma infância de muita molecagem, brincadeira na rua, anoitecer e a gente tá na rua brincando coisas de brincar na rua, e eu lembro das histórias da revolução  que eu via passar os tanques que tinha, tem até hoje, o quartel, e eu lembro daquilo. Depois fui pra Teresópolis e estudei no Ginásio São Luiz e ai era o tempo das reuniões dançantes, da galerinha se encontrar sábado de tarde na garagem de alguém e tal e deixa eu ver… E nessa época eu conheci já Beatles, que até então eu conhecia o que meu pai e minha mãe ouviam, né, e ai eu conheci os beatles. Eu vou lembrar, até hoje a minha amiga Vera me pergunta, "Mary, tu já ouviu falar de uma banda chamada beatles?" eu falei "não" "Ah então vem cá que eu vou te mostrar" e ela tinha um compacto e daí o resto é história né. Dai em seguida a gente foi pra Teresópolis, de Teresópolis a gente voltou pra Petrópolis... (Mezzari fica pensativa) Não! Ali em Teresópolis foi a época dos Rolling Stones, os amigos da esquina maldita, aqui ali no Bom Fim, o Alaska e Cia, uma coisa assim, as idas pra Santa Catarina, aquelas coisas que a gauchada descobriu o sul de Santa Catarina , eu lembro de Garopaba ter vilazinha, eu lembro dos pescadores, eu lembro que a gente que ajudava os pescadores a recolher a rede e depois ganhava de presente o peixe e levava limpinho em filé pra casa e comia. (Ela ri) E daí veio a faculdade.

JC: Tu entrou com quantos anos pra faculdade?
M: Vinte e poucos, por aí...

J: Eu li que tu foi filiada ao PT e depois se filiou ao PCdoB. Qual a tua relação hoje com a política?
MM: Agora, nesse momento, eu to assim em recesso com a política. Eu vivi a ditadura militar assim, já grandinha, eu não vi nada assim de ver gente ser presa, mas eu sabia que existia  que acontecia, que tinha esse clima, que era perigoso. A gente tinha que tomar muito cuidado, né, andando na rua e tal. Podia ser preso a qualquer momento por qualquer motivo sumir e desaparecer, e ai depois que passou a ditadura e a redemocratização do país eu me filiei ao PT acreditando, né, no partido, numa nova visão de sociedade, uma nova forma de governar, e, ao longo dos anos, fui vendo esse partido se transformar um partido igual aos outros... E aí, quanto ao PCdoB, foi no começo do governo Tarso Genro, um amigo me sugeriu: "Mary, te filia ao PCdoB que ai fica mais fácil tu pleitear alguma coisa no governo Tarso " e aí eu me filiei ao PCdoB  e através do PCdoB eu entrei na FM Cultura e ai não foi um bom relacionamento... Tanto que eles eram aliados na eleição do Tarso mas quando veio a eleição pra prefeitura eles se tornaram inimigos e aí ficou uma situação muito delicada pra mim e foi o que aconteceu, foi um processo meio chato assim... De te botar em situações que te obrigassem a pedir demissão, aquela coisa. Eu não pedi, esperei que fosse demitida, e foi o que aconteceu. Terminou eleição pra prefeito e eu fui demitida. Desde então eu to assim totalmente desligada de qualquer amor à qualquer legenda.

JC: Mas tu fez a campanha do Tarso nas ultimas eleições...
MM: Fiz a campanha do Tarso agora, a última, contratada como profissional jornalista. Não ganhamos, ainda bem (ri) e hoje eu procuro evitar qualquer ligação emocional com qualquer partido. Se tiver que trabalhar com partido vai ser como profissional na área e não como uma militante. Não sou mais militante de ninguém.

JC: Bom, na adolescência tu vivem em plena ditadura e tu tem tendencias de esquerda, como foi pra ti conviver e estudar esses ideais nessa situação?
MM: A a gente se divertia também, a gente se cuidava muito, a gente tinha reuniões políticas e tal e tudo meio quase clandestino assim, né. Mas eu, pessoalmente assim, nunca me encuquei muito com isso assim, mais frouxo, mais sem medo assim, nunca tive medo de polícia.

JC: Mas como eram essas reuniões?
MM: Tinham reuniões fora, na casa dos amigos.

JC: Já que a gente tá falando de política, o que tu acha dessa nova onda de impeachment,volta da ditadura, etc?
M: Em primeiro lugar (ela da uma risadinha) quem quer a volta da ditadura não viveu a ditadura, não viu o que é que foi, sabe... Censura encima né, e mesmo assim a gente conseguiu se divertir até porque na época a gente era tri jovem e não tem como não se divertir.

JC: Tem toda aquela rebeldia...
MM: Aquela rebeldia natural! Fazia parte do não levar a sério. Hoje, com o impeachment, se existe motivo para impeachment, que seja 'impixada'. Mas eu acho que isso ta sendo usado como arma de eleição, é um terceiro turno, o pessoal que não foi eleito agora...

JC: Aécio...
MM: Aécio neves! (ela ri) Vamos citar nome e sobrenome (ri ainda mais) eles não aceitaram! Eles querem um terceiro turno! E tem muita gente que tá nessa consciente com todo o direito de querer o impeachment da Dilma, mas tem gente que tá nessa achando que se cair a Dilma o Aécio assume e  tem gente que tá acreditando! E não é! Se a Dilma cai assume o Michel Temer! Que é o PMdB que não é um partido que dos mais, assim, corretos... Tá ai há anos! Eu acho que essa batalha ai, essa luta pelo impeachment, esse pessoal que quer a volta da ditadura militar não tem.. Não tem mais condições de acontecer isso. O impeachment até pode, mas a volta dos milicos nem eles querem .

JC: Mas mudando um pouco, tu realizou todos os teus sonhos como radialista? 
MM: Não. Não trabalhei na BBC de Londres. (Debocha rindo) Não! sabe qual é o meu sonho de radialista? É trabalhar até o fim, esse é meu sonho pra mim. O microfone ligado pra mim até o último momento.

JC: E hoje tu trabalhando em rádio?
MM: Não.

JC: E o que tá fazendo hoje?
MM: Nada, nada.  Mas to na luta, to atrás... É que o mercado tá muito pequeno, as empresas estão só demitindo, não estão contratando.

JC: Tu acha que tem algum porque disso?
MM: A crise econômica, né, o que tá no Brasil, essa incerteza  política também, não se sabe o que é que pode acontecer daqui a pouco... Eu acho que é a crise. Os donos das empresas de comunicação tem medo. Talvez esteja diminuindo também os anúncios, o anunciante. Tá pelo mesmo medo, né, de ser demitido.

JC: Tu acha que existem pessoas que controlam a informação? 
MM: Sim, sim, sim... A própria Zero Hora tem uma orientação que tu não pode sair da orientação deles, acho que cada veículo controla, puxa a brasa pra sua sardinha como se dizia antigamente... (Abre um sorriso) Não tipo um controle, tipo um órgão, tipo censura...

JC: Mas sobre manipulação...
MM: Manipulação acho que depende do dono do veículo, tipo a Rede Globo.

JC: Tudo depende da audiência...
MM: A audiência (Mary termina a frase junto comigo enquanto afirma com a cabeça). Tem todo um interesse político e econômico de dominar o setor.

JC: Até porque agora, não sei se tu viu e eu tenho visto pouco sobre isso, mas pelo que eu entendi a Zero Hora tá envolvida num escândalo  que eles não podem falar sobre e a gente acaba vendo pouco na mídia.
MM: Claro! Mas sim né! E eu também não vi , mas se tu souber tu me conta desse escândalo! A Zero Hora, a RBS tem uma dívida imensa, imensa! Talvez tenha haver com isso que tenha sido cobrado.

Ela coloca a pequena xícara de lado, ajeita as mangas da blusa preta com gola cortada em formato quadrado, cruza os braços e olha no fundo dos olhos enquanto faço a nova pergunta:

JC: Tu não tem filhos né, tu não é casada...
MM: Não, não.

JC: Tu sofreu alguma crítica por isso?
MM: Não. Eu não quis ter...

JC: Porque?
MM: Porque eu não seria uma boa mãe! (ela ri)

JC: Como assim?
MM: Eu não me sinto ter o instinto maternal sabe. Talvez eu tenha me arrependido há alguns anos por não ter tido filhos,  né, mas eu acho que hoje em dia eu realmente não teria. Colocar uma criança nesse mundo...

JC: Sim, é muita responsabilidade
MM: É muita responsabilidade e o perigo que ronda. Eu não colocaria, se bem que eu amo as crianças, os filhos dos irmãos, dos meus primos, eles são uns amores, são super inteligentes, Mas eu, eu, não teria a capacidade de aguentar essa responsabilidade, eu ia surtar!

JC:  É aquela coisa, não é porque tu não tem filhos que tu não goste de criança...
MM: Claro! Eu gosto deles! Eles são tudo! São o futuro da gente, mas eu não me sinto responsável assim...

JC: Então... Eu andei pesquisando por aí e eu acabei descobrindo uma história de um relacionamento teu com um baiano. Como que foi isso?
MM: (Ela gargalha) Tá! Eu tive um relacionamento com um baiano! Mas como é que o povo ficou sabendo?! Sim, foi um garoto que eu conheci em Salvador, no carnaval, me apaixonei, voltei a Porto Alegre depois voltei a Salvador por causa dele, mas não durou muito... Voltei, vim me embora pra Porto Alegre

JC: Quantos anos tu tinha?
MM: Uns 30 por aí... Ele ficou lá, soube que ele faleceu... Um lindo de um mulato, belíssimo, coisa mais querida o Valmir.

JC: E sobre os boatos de que tu era lésbica?
MM: (Ela dá mais uma gargalhada e esconde a cabeça entre os braços apoiados na mesa) Lésbica? Pelo amor de deus! Eu gosto de rapazes! (Ri esbaforida, toma um pouco de ar e retoma) Se bem que sou capaz de achar uma mulher bonita, e de sentir uma espécie de atração, mas nada a ponto de ter uma relação.

JC: E hoje, tu está em algum relacionamento?
MM: Tenho, tenho. Tem um garoto que mora comigo.

Sugeri então que fizéssemos um pingpong, eu dizia uma palavra e ela a primeira coisa que viesse em mente.

JC: Um momento: 
MM: Fórum Social Mundial no Anfiteatro Pôr-Do-Sol, eu apresentando o Rappa pra cem mil pessoas e tava começando umas brigas, né, ali na frente e aí eu disse "calma isso aqui é o Fórum Social Mundial, é  o fórum da paz, então vamos todos gritar, em 1 2 3 todo mundo vai levantar a mão pra cima e gritar paz tá? 1 2 3 e oooooh" aquele monte de gente, foi um grande momento...

JC: Uma música que te defina hoje:
MM: Viva la vida do Coldplay. É muito linda aquela música, é muito linda.

JC: Um livro:
MM: Cem anos de solidão do Gabriel Garcia Marquez.

JC: Uma polêmica favorita:
MM: (ela fica em silencio pensativa, dá de ombros e diz) Grenal, é claro. Não! Deixa eu ver, uma brincadeira que a gente fazia com o oasis, eu e o jimmi joe, a gente estava no meio de uma conversa ai alguém dizia assim "ah eu acho Oasis muito melhor que Beatles" e vinha "como que Oasis é melhor que Beatles?" e começava o blá blá blá e a gente ficava de fora vendo a briga e ai dizia "olha Zé do Belo é melhor que Oasis, Zé do Belo é melhor que Beatles" e a gente se divertia!

JC: Tua relação com cachorros: 
MM: Amor.

JC: E com  gatos: 
MM: Estranhamento.

JC: O time Internacional: 
MM: Grande time, Internacional...

JC: Grêmio:
MM: Ah eu não vou dizer! Eca! (Ela faz uma careta e ri) Um adversário, não um inimigo, um adversário...

JC: Futuro: 
MM: Futuro a Deus pertence.

JC: Passado: 
MM: Não dá pra mudar.

JC: A rotina da não rotina: 
MM: Instigante, divertida, expectativas, coisas assim.

JC: Uma pauta que surgiu de outra pauta:
MM: Ah. a minha pauta era de cruzar com o artista e colocar ele no ar, eu peguei o Chico Science foi uma das últimas entrevistas dele, botei ele no ar na Ipanema lá no Hollywood Rock.

JC: Pra finalizar então, tem alguma coisa pra dizer pra quem está estudando jornalismo agora, algo que não aprende na faculdade?
MM: Eu digo sempre a mesma coisa: humildade a palavra. Auto estima tudo bem, confiança,  tudo bem, mas humildade... Agora eu não sei se foi o Sócrates, foi ele sim o filósofo grego que disse a frase que é o meu mantra: eu só sei que nada sei. A única certeza que a gente tem é que a gente não sabe nada. Tudo precisa ser aprendido e visto de novo,  e a gente não pode, principalmente um repórter, chegar no lugar com a ideia pronta já, forjar a tua matéria, a tua ideia inicial. Não, a tua ideia inicial tu tem, tu não pode chegar com uma ideia pronta, depois que tu recolher tudo ai que tu vai ter a ideia, e mesmo assim pode não estar completo.

Mary Mezzari (E) e eu, Jubs Coin (D)

03 junho, 2015

Sexismo, lugar de mulher e mercado de trabalho. À quantas anda?


Foto: Juliana Coin
Quando pensamos numa questão histórica e cultural, percebemos que mulheres sempre foram designadas e ensinadas a cuidar da casa, dos filhos e do marido. Porém movimentos feministas que surgiram em meados do século XVIII, com a revolução industrial e toda uma  transformação, tecnológica, econômica e política, fez surgir a necessidade da participação de mulheres nas fábricas para garantir a  sobrevivencia da família. Neste movimento, que hoje em dia vem ganhando cada vez mais força, reivindicava por direitos iguais aos do sexo oposto. 
Então chegamos ao século XXI. Mulheres já tem mais espaço na sociedade porém ainda não recebemos o mesmo tratamento e nem todos os direitos perante o mercado. Constantemente assediadas, subjugadas, oprimidas e estereotipadas, entre tantas coisas, existem ainda situações que podem gerar constrangimento. Em algumas entrevistas de emprego, mulheres são questionadas sobre maternidade, se já tem filhos ou se querem ter. A questão é intensa e muito debatida, qual a relação entre ser mãe e não ser uma boa profissional?
Fora estas questões, ainda temos outro fato a considerar: o sexismo. Somos acostumados a pensar que existem certos tipos de trabalhos para homens e certos tipos de trabalhos para mulheres, o que é errado.
Mesmo que ainda tenhamos antigos problemas, são novos os tempos. Hoje, cada vez mais, mulheres entram nesse mundo sexista e quebram tabus, como é o caso da Rosana Coin (foto abaixo), pintora e “faz tudo” que já trabalhou como camareira, governanta, recepcionista, auditora e enfermeira, e agora encontrou o que realmente gosta de fazer. Conversei com ela sobre sua ligação com o trabalho, e ela, despojada e sincera, falou abertamente seus pontos de vista sobre direitos e o trabalho em si, porque quis trabalhar com manutenções gerais e como foram os outros empregos.
Como muitos ainda vêem a situação com maus olhos, a questionei sobre as críticas que recebe, e abertamente expôs “Assim, num dos meus primeiros trabalhos, um cara disse ‘Nossa mas uma mulher?’ e uma semana depois tudo que ele via ele pedia pra uma mulher consertar. Mas era uma pessoa bem mente aberta, não falou como crítica, ele falou como algo inusitado.”
Foto: Juliana Coin

Perguntei se recebia críticas negativas e até maldosas nos antigos empregos e a resposta foi rápida “Sim. Quando eu trabalhava como governanta eu era chefe da manutenção e quando eu falava alguma coisa da manutenção, que precisava de conserto e que eu tinha razão, o funcionário  simplesmente não fazia por que ele era o homem, ele que sabia.”.
Mas ela diz que neste trabalho não sofre os mesmos assédios que sofria nas outras profissões, “Quando eu trabalhava na enfermagem ou no hotel, achavam que quem trabalhava lá eram prostitutas. Eu constantemente incentivava as mulheres, as camareiras a não aceitarem esse tipo de assédio. (...) Quando outras pessoas, ás vezes de outros países, iam pro hotel, viam as camareiras como prostitutas, como inferiores. Elas se sentiam humilhadas muitas vezes.”.
Como sua profissão atual desconstrói uma “verdade absoluta” imposta, ela acha que é necessário essa conquista pelo espaço, que isso não seja apenas uma lei que dê a entender ser uma obrigação contratar pessoas de tal cor, raça ou gênero, diz que deve ser algo natural. Quando questionada sobre os estereótipos e o sexismo presente na industria em geral, Rosana comenta “Olha, eu fiz cursos ‘pra mulherzinha’ , fiz curso administração, fiz enfermagem, fiz vários cursos, trabalhei em hotel, com serviços ditos pra mulher, mas o que sempre me atraiu sempre foi montar quebra cabeças, desafios… E o fato de dizer que “tu não pode, tu é mulher”. Isso me atraiu mais ainda. E mais, nesse trabalho tu divide muito o que tu sabe, tu aprende muito, tu não tem amarra, não tem nada te segurando, e isso não tem preço.”
A presença de todos os tipos de pessoas com cada particularidade própria é importante. Devemos enfatizar que a luta por igualdade é algo que beneficia a todos, promove o respeito e a educação. É importante que empresas apóiem esse tipo de atitude e de movimento, e, tão importante quanto, é necessário que saibamos aceitar as outras pessoas tal como elas são, a mudança acontece muito mais rápido no momento em que parte de dentro de cada um de nós. A Revolução Industrial foi um marco na história por vários motivos, porém ainda precisamos de mais uma Revolução. Uma Revolução em nós mesmos.